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Os choques de cultura (1): O indigesto almoço de negócios

A Sonepar, um grande distribuidor global de componentes eletrônicos de origem francesa, estava se instalando no Brasil. Hervé Salmon, um jovem executivo, foi quem trouxe a companhia para o país. Na época, eu era responsável pelas operações da Rockwell Automation, e a notícia da vinda desse distribuidor para o Brasil foi muito bem-vinda à nossa companhia. Já operávamos com a Sonepar em vários países.

Nesse processo, Hervé e eu nos tornamos bons amigos. Viajamos juntos para a nossa matriz em Milwaukee, EUA, fomos ao Canadá, além dele me apresentar ao melhor “chorizo” de Buenos Aires.

Em uma visita de nossos chefes ao Brasil, marcamos um almoço para finalizar os arranjos. O meu chefe era o Bob Becker, e, na falha grave de minha memória, vou chamar o executivo da Sonepar de “Monsieur”.

Bob foi um ótimo chefe, o mais “mão na massa" que jamais tive. Ao mesmo tempo um entusiasta dessa nova parceria. Aprendi muito com ele, ao mesmo tempo que presenciei algumas divertidas gafes culturais.

Para fazer bonito com o nosso parceiro, marquei o almoço em um dos melhores restaurantes franceses de São Paulo.

Pode-se imaginar a cena: de um lado, um convidado francês, em uma refeição prolongada, buscando travar um bom relacionamento com o seu parceiro, mas, principalmente, conhecê-lo bem. Do outro lado da mesa, um americano, acostumado com o conceito do breve "lunch" e ansioso para falar primeiro de negócios.

No meio desse “sanduíche” de duas culturas, lá estávamos o Hervé e eu, tentando mediar as expectativas: ainda durante a entrada, Bob olhava impacientemente para o relógio, surpreso por terem decorrido 40 minutos e nem mesmo havermos entrado no prato principal (por ele, já estaríamos na sobremesa!).

Era evidente que ambos continuavam na zona de conforto de suas próprias culturas (pelo menos, o Bob estava). Sem entrar em muitos detalhes, é óbvio que o almoço foi um fracasso em seu propósito. Pelo menos, eu achava.

Nos meses seguintes, o Hervé e eu tivemos que “colher os cacos” desse almoço, mas, após mais alguns meses de trabalho árduo, os acordos foram finalmente finalizados.

Passados mais de vinte anos, a Sonepar é uma grande potência na área de distribuição de componentes eletroeletrônicos, tendo inclusive adquirido vários distribuidores da Rockwell no Brasil. Ainda esta semana, recebi do Hervé o seguinte texto por WhatsApp :“Você viu que a Sonepar acaba de adquirir a Ladder, a Intereng, a Jav e a Macrotec? Está se tornando distribuidor exclusivo da Rockwell no Brasil. Graças a você, que iniciou este processo com a Eletronor”.

Respondi imediatamente: “Graças a NÓS!”

Bem, não posso dizer hoje, que aquele almoço foi um fracasso. Apenas me deu a dimensão do que pode estar em risco devido a barreiras culturais. Quanto ao Hervé: Parabéns pelas conquistas de sua grande liderança! Quem imaginaria isto naqueles dias pioneiros?

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