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O que aprendi com os meus clientes (5) - Princípios que atravessam fronteiras

Durante o tempo em que estive na GE Healthcare (GE Medical Systems, na época), tive a oportunidade de participar de negociações em diversos países. Algumas marcaram minha trajetória de forma especial, como a que envolveu um grupo de executivos da Mitsubishi, do Japão.

O encontro final aconteceu em um hotel cinco estrelas em Miami. Seria a assinatura de um contrato importante, evento carregado de formalidades. Meu chefe na época, Sérgio Tieppo, fazia questão de cuidar de cada detalhe com precisão quase cerimonial.

Na véspera do brinde que selaria o acordo, ele descobriu algo que o deixou preocupado: eu não bebia álcool. E, segundo ele e outros colegas, isso poderia ser visto como uma ofensa pelos japoneses, que dão grande valor a esse tipo de ritual.

Tentou me convencer a ao menos molhar os lábios, só para manter as aparências. Mas não era uma questão de gosto. Era de princípio. E sobre isso, não havia margem para negociação.

Foi então que Janine Barré, nossa diretora de Recursos Humanos, uma francesa de mente aberta e coração generoso, teve uma ideia. Antes do brinde, discretamente, me entregaria um cálice com água. E assim foi.

Éramos cerca de seis pessoas de nossa parte, e três da comitiva japonesa. Na hora decisiva, todos se levantaram com suas taças. Janine, junto à parede, estendeu-me o cálice com água. Brindamos.

Terminada a cerimônia, fiquei por alguns minutos admirando a vista pela janela do hotel. Foi quando se aproximou o executivo-chefe da Mitsubishi. Ficamos ali, lado a lado, em silêncio.

Sem desviar os olhos do horizonte, ele disse:

“Reparei que o senhor não bebeu durante o brinde.”

Apertei os ombros, esperando algum tipo de repreensão. Mas, virando-se para mim, ele completou:

“Admiro profundamente quem se mantém fiel aos seus princípios, quaisquer que sejam as circunstâncias.”

Ali nasceu uma conversa longa, franca, sobre valores, família, trabalho. Ficamos um longo tempo separados do grupo, imersos em assuntos que nada tinham a ver com trabalho. Mais do que isso: ali nasceu um vínculo.

As negociações seguintes, já no Japão, foram marcadas por respeito mútuo e, claro, pela presença silenciosa de um copo d’água.

O que aprendi? Que princípios não devem ser adaptáveis às circunstâncias. Que coerência não ofende, inspira. E que respeito verdadeiro nasce justamente daquilo que não se impõe.

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