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O Meu Último Herói

Quando digo “último herói”, refiro-me ao mais recente. Afinal, nunca somos velhos demais para ganhar novos heróis ao longo da vida.

Arthur, talvez você nem soubesse disso.

Nos conhecemos de forma simples: fazendo fisioterapia no mesmo lugar, em plena pandemia. Você tinha 14 ou 15 anos e algo chamava atenção imediatamente: sua voz, suas conversas, sua curiosidade. Falava com os fisioterapeutas sobre viagens, experiências, planos, como alguém que tinha muito mais tempo vivido do que indicava a idade.

Com o tempo, notei suas ausências. Mais tarde, dividimos sessões próximas e começamos a conversar. Na sala de espera, sua mãe e Marina, minha esposa, criaram uma amizade espontânea. Foi ali que compreendi a dimensão do que você enfrentava: um melanoma no cérebro, cirurgias, tratamentos agressivos, fisioterapia, tudo isso no auge da adolescência.

O que mais impressionava não era a doença. Era você. O otimismo constante, a esperança, os planos. Em algumas voltas, você retornava mais frágil, às vezes com andador, mas sempre com os olhos vivos e a frase que virou marca registrada: “Voltei!”. O sorriso vinha junto, e com ele a alegria de todos ao redor.

Você falava da faculdade de Tecnologia da Informação como um projeto concreto. E, contra todas as probabilidades, tornou-se realidade.

Havia detalhes que humanizavam tudo: suas recomendações de restaurantes, os planos para o fim de semana, como se a doença fosse apenas um detalhe secundário. Ou seu amor pelo Corinthians, e a empolgação ao consultar um médico ligado ao clube. Era impossível não sorrir junto.

Depois, você e sua mãe mudaram de instituição. Perdemos o contato.

Até que, por uma dessas coincidências que a vida insiste em criar, você estava internado em uma UTI e reconheceu o sobrenome no crachá da fisioterapeuta. Era nossa filha caçula. Recebemos uma selfie de vocês juntos. Inesperada. Especial. Inesquecível.

Soube também o quanto a música “Alguém Cuida de Você”, composta e interpretada pela Marina, fez sentido para você naquele momento. Ela nunca soou tão verdadeira.

Poucos dias depois, veio a notícia. Arthur nos deixou. Foi acolhido, como disse a mensagem que recebi, “nos braços do Pai”.

Aqui a lógica se inverte. Não foi o mais velho que deixou um legado ao mais jovem. Foi você quem nos ensinou. Alegria genuína, confiança no futuro, coragem silenciosa. Nenhuma desculpa baseada em dificuldades pessoais sobrevive ao seu exemplo.

Arthur, sua missão foi cumprida com honra. Talvez não tenha precisado de tanto tempo quanto nós para completar o aprendizado necessário.

Por isso, ao olhar para o Ano Novo, você é, sem dúvida, o meu último herói.

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