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Meu déjà vu cultural

Anos atrás, durante meu período na Rockwell, vivi uma experiência que só mais tarde compreendi em toda a sua dimensão.

A missão que recebi da matriz parecia simples na teoria, mas era complexa na prática: implantar uma estrutura matricial entre as linhas de produtos, que até então funcionavam de forma centralizada.

Não era apenas um novo organograma, mas sim, um novo modelo mental.

As primeiras semanas foram intensas. A estrutura anterior havia formado líderes talentosos, cada um com domínio total sobre sua área. Mas a nova lógica exigia integração, compartilhamento de decisões e confiança mútua.

E nem todos se adaptaram. Vários executivos, profissionais competentes e respeitados, acabaram deixando a companhia.

Foram saídas dolorosas, tanto para eles quanto para mim, que precisei tomar decisões difíceis. O negócio estava saudável, mas a cultura, incompatível com o novo formato.

Foi nessa época que um colega britânico, me presenteou com o livro Riding the Waves of Culture (Navegando nas Ondas da Cultura), de Fons Trompenaars.

Ao lê-lo, percebi que não se tratava apenas de um estudo sobre comportamento organizacional, mas de um espelho. O autor mostrava como as diferenças culturais moldam decisões, relacionamentos e até o sucesso das empresas.

E, por coincidência, o próprio Trompenaars ministrou um módulo em um seminário da Rockwell, na Irlanda. Foi ali que minha “ficha caiu” de vez: o problema não era técnico, era cultural.

Em uma publicação posterior, encontrei um teste que classificava a cultura dominante de cada pessoa: latina, oriental, alemã, anglo-saxônica, árabe, entre outras.

Fiz o teste com leve desdém. Afinal, eu era brasileiro, consciente e orgulhoso disso.Mas o resultado foi um choque: “anglo-saxão, Refiz o teste, certo de que havia errado. O resultado foi o mesmo.

Demorei a entender. Sou filho de imigrantes lituanos, formado nos Estados Unidos, trabalhei toda a vida em empresas americanas e pertenço a uma instituição religiosa sediada em Salt Lake City.

Sem perceber, eu havia incorporado aquela forma de pensar, decidir e agir. Foi o meu déjà vu cultural: o momento em que percebi que a única “verdade” que eu conhecia era a minha própria lente cultural.

A partir dali, passei a enxergar o mundo com outro filtro. Percebi que a cultura latina, mais hierárquica e afetiva, tem dificuldade em aceitar estruturas matriciais. Afinal, é difícil conviver com “dois pais”.

Aprendi que compreender o diferente é o primeiro passo para compreender a si mesmo.

Anos depois, ao ministrar essa disciplina no MBA da Trevisan, uma aluna de ascendência alemã, casada com um japonês, me disse ao final da aula:

“Professor, se eu soubesse disso antes, o começo do meu casamento teria sido completamente diferente.

”Ela também teve o seu déjà vú!

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