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Lições que aprendi com os meus clientes (6): Entre Interesses Ocultos e Lideranças que Inspiram

A ética, muitas vezes, se revela não apenas nas grandes decisões, mas na forma silenciosa como lidamos com situações difíceis. Entre a decepção de processos viciados e o exemplo luminoso de líderes que colocam a população acima dos interesses, surge a pergunta inevitável: qual é o verdadeiro legado que desejamos deixar?

Anos atrás, quando estava na GE Healthcare, recebemos um convite para uma cotação de equipamentos médicos em um hospital de referência de um importante estado do Brasil. O pacote era significativo, abrangendo várias categorias, muitas delas de alta tecnologia. A equipe trabalhou intensamente na preparação da proposta, por semanas.

Porém, à medida que avançávamos, ficou evidente que as especificações técnicas apontavam de forma quase exclusiva para um fornecedor específico. A constatação era clara: a concorrência não seria justa. Reunimos provas, levamos à comissão responsável e fomos recebidos com cordialidade e promessas de revisão. Dias depois, o escritório encarregado simplesmente desapareceu. Não houve decisão, não houve concorrência, não houve transparência. Restou-nos apenas a decepção pela forma como tudo se dissolveu.

Nesse mesmo período, ouvi de um interlocutor uma frase perturbadora: “Político que rouba para o partido é herói, político que rouba para si mesmo é isolado.” Expressão que traduz uma lógica perversa ainda presente em parte da nossa cultura. Ironicamente, um tipo de “Robin Hood dos corruptos”.

Pouco tempo depois, vivi uma experiência oposta. Fui recebido em Brasília pelo então ministro da Saúde, renomado cirurgião cardíaco, Dr. Adib Jatene. O tema era a possível adoção de equipamentos de ponta nos hospitais públicos.

Com sua serenidade habitual, ele explicou que a prioridade não era a alta tecnologia, mas sim atender às necessidades básicas da população. Citou os exemplos da França e do Canadá, onde sistemas centralizados oferecem serviços de qualidade a toda a sociedade.

Completou, afirmando que a sua missão seria a de equipar hospitais e clínicas nos mais distantes rincões desse Brasil, com o necessário para que todos tivessem um atendimento decente. Nada de alta tecnologia.

Saí daquela reunião com menos entusiasmo como executivo, mas com muito mais esperança como cidadão. A clareza de propósito, a ética e a transparência daquele líder mostravam que o Brasil também tem homens e mulheres capazes de colocar o bem coletivo acima de interesses particulares.

Entre os dois episódios, fica a lição: a ética é o divisor de águas entre o oportunismo e a verdadeira liderança. Ela não depende apenas de discursos, mas de escolhas práticas, muitas vezes silenciosas, que revelam caráter e moldam destinos.

Se quisermos transformar nossas organizações e nosso país, precisaremos de mais líderes que pensem como foi o Dr. Jatene, comprometidos com a população, guiados por princípios e imunes às tentações fáceis do poder.

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