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Carreiras perdidas nas...Armadilhas da Racionalização

Às vezes a decisão errada não começa com uma grande má intenção. Começa com algo pequeno. Um ajuste aqui, um “não vai fazer diferença” ali, uma desculpa que parece inocente.

É assim que nascem as armadilhas da racionalização, e poucas coisas são tão perigosas para carreiras e organizações.

Recentemente, o caso Boeing voltou a mostrar isso ao mundo. Após o acidente envolvendo o 737 Max, investigações revelaram um padrão de racionalizações internas: acelerar processos, contornar alertas, minimizar riscos, confiar demais em histórico, ignorar sinais. Ninguém acordou pela manhã dizendo “vamos comprometer a segurança”.

Mas muitos foram dizendo “isso não é tão grave”, “a gente resolve depois”, “sempre fizemos assim”. As consequências foram devastadoras.

Quando li sobre isso, lembrei-me de quantas vezes vi fenômeno semelhante na vida corporativa. Em empresas diferentes, áreas diferentes, níveis diferentes. Pessoas brilhantes, bem-intencionadas, que começaram a justificar pequenas incoerências… e terminaram envolvidas em situações que jamais imaginaram.

A racionalização é sedutora porque ela oferece alívio imediato: protege o ego, evita conflitos e cria a sensação de que está tudo sob controle. Mas, silenciosamente, corrói o julgamento. E quanto maior a pressão... metas, prazos, expectativas... maior o risco de se escorregar nela.

Com o passar dos anos, aprendi a observar três sinais muito claros:

1. Quando alguém tenta “encaixar” fatos para confirmar o que gostaria que fosse verdade. É o famoso “não deve ser nada”, dito para calar uma voz interna que está pedindo atenção.

2. Quando a pessoa compara sua decisão com algo pior para parecer aceitável. “Todo mundo faz”, “não é tão grave quanto…”, “podia ser bem pior”.

3. Quando o discurso passa a soar mais elaborado do que a própria realidade. A justificativa vira mais sofisticada que o fato. Esse é o momento crítico.

Isso vale para a ética corporativa, mas também para relações humanas, gestão, decisões estratégicas, política interna e até vida pessoal.

Já vi a racionalização destruir carreiras brilhantes, e também vi boas conversas evitarem grandes tragédias silenciosas. Se existe um antídoto para isso, ele é simples, mas exige coragem:

Parar, respirar, e perguntar com honestidade brutal:

“Estou tomando essa decisão pelos motivos certos ou apenas construindo uma explicação confortável?”

Essa pergunta, feita no momento certo, já salvou reputações, equipes, empresas e, no caso Boeing, talvez tivesse salvado vidas. A verdade é que todos nós estamos expostos a esse risco. Todos. O líder que acha que nunca irá racionalizar alguma decisão já começou a fazê-lo.

No fim, ética não é sobre perfeição. É sobre vigilância.

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